"Amor Além da Vida"

Sra. Josiane Barbosa Oliveira - Psicóloga e Candidata do Instituto da SBPRP

 

Direção: Vincent Ward

 

 

Por uma coincidência a discussão do filme “Amor Além da Vida” sugerido para discussão na programação do Cinema e Psicanálise no Sesc, ficou bastante próxima da realização de nossa I Bienal Psicanálise e Cultura. Ao me dar conta de tal coincidência, percebi que a proximidade não era apenas de datas, pois o tema da Bienal - “Alma estás aí?”  Onipotência e desamparo do homem em travessia- tinha muito a ver com idéias, imagens, sonhos que o filme havia despertado em mim e que pretendia compartilhar/levantar por ocasião do encontro no Sesc.

O modelo do homem em travessia é muito rico para pensarmos o percurso pelo qual atravessamos a vida do nascimento até a morte, alguns podem acreditar que atravessamos para além da morte ou para além desta vida, conhecemos muito pouco a respeito do “lugar” de onde viemos e talvez menos ainda de para onde vamos. Assim nos resta a travessia/passagem, é com isto que podemos contar, é até aí “que a vista alcança” e aonde a visão não alcança, a gente sonha, imagina, faz filme, quem sabe arte, quem sabe psicanálise buscando encontrar alguma forma tolerável para este não saber que pode ser vivido como imenso desamparo.

Mas e quando durante o caminho não é possível sonhar, filmar, imaginar, fazer arte a partir da angústia do viver, da angústia de estar exposto as condições do caminho que não escolhemos e por vezes sequer conhecemos , para onde vai a “alma” errante e desamparada? Não para onde vai a alma depois da morte, mas para onde vai a alma durante a vida?

Este filme nos apresenta imagens de almas “penadas”, que vagam por uma espécie de limbo, o vale dos suicidas, um lugar qualquer, nem céu, nem inferno, possivelmente mais horroroso do que o próprio inferno. Provavelmente, ali estão os que sucumbiram à angústia do viver humano tão “desamparado” e buscando se livrar da travessia recorreram à onipotência, concorrendo com “Deus”, com o “Destino”, com o “Inexorável”, para dar conta/dar cabo da própria vida, sem precisar de mais nada ou ninguém e assim estão “pagando” por tamanha pretensão.

Um homem e uma mulher, que se encantam e se apaixonam, se unem e constituem uma família, nada mais antigo na história da humanidade, nada mais comum até os dias de hoje. Aqui a riqueza dos personagens não está propriamente na sua individualidade, mas na sua expressão como representantes da espécie humana em sua luta para sobreviver e dar algum sentido à vida (é interessante notar como os personagens ao longo do filme podem assumir diversas formas sem distinção de raça, cor, idade como na própria vida, nas suas questões universais/humanas).

Assim, o enredo vai se desenrolando, um homem, uma mulher, uma família tudo conforme o esperado e o natural, principalmente nos romances do cinema. Por um instante nos esquecemos do desamparo, os personagens expressam nossa crença necessária para sobreviver de que estamos no controle, escolhemos com quem nos casamos, quantos filhos teremos, quando e como, pensamos que podemos inclusive controlar o cardápio das crianças na escola e em casa, cuidamos da tarefa de casa e do uniforme e de repente eles saem de casa de carro e não voltam mais... E quando se está prestes a conseguir algum remédio para tamanha dor a situação se repete com o marido. Vamos e venhamos nós humanos não fomos talhados para isto, para tal horror, sem sentido, sem explicação, não é humano, seria divino ou diabólico?

Então a estória nos lembra do desamparo e do não saber e de como enfrentar tal realidade, uma dor sem fim, sem sentido que deixa os olhos “vidrados”, tira a consciência. Como se diz popularmente “desmaiou de dor”, “perdeu os sentidos, tamanha dor”. Como recobrar os sentidos, como voltar do desmaio, como resgatar a alma?

Nosso “colega”, diretor do filme ao nos apresentar os diversos planos e tempos, plano terreno x plano espiritual, passado x presente x futuro e a vida só como um suspiro na imensidão do universo, nos traz as diversas dimensões nas quais acontece nossa luta pelo resgate da alma. 

O plano “terreno” onde não se encontra o sentido e aonde qualquer contato com a vida vem junto com a dor insuportável, viver significaria poder incluir a dor, isto não sendo possível o único recurso é eliminar a vida.

Porém, ainda contamos com o que se passa no plano “espiritual”, lá a luta continua, podemos então pensar quantas vezes entre os ditos vivos nos encontramos com “zumbis”,  mortos - vivos que vagam pela vida sem vida, mas também sem a morte, com os olhos vidrados, sem poder alcançar a própria dor, ficando presos no limbo do  não sentir,aqui vejo então uma representação não só da morte concretamente mas da morte em vida, onde a pessoa parece viva mas ao mesmo tempo não parece viver, talvez ocupada com esta busca que descrevemos, mas de forma tão íntima, tão particular que não se enxerga a “olho nu”.

Mas ainda na luta pelo resgate da alma pode se recorrer ao céu, o céu apresentado como “aqui tudo ganha a forma que você puder suportar você cria aquilo que agüenta ver e viver”, como diria o “poeta” “se posso pensar que deus sou eu”...  A onipotência?...Mas aos poucos se observa indícios da presença de algo que vai além do que a “nossa vista alcança”, não se pode trazer quem não está lá, havia limites mesmo neste céu. Mas ainda assim há um filho menino/homem que diz ao pai:- Você pode fazer o que quiser.  Apresenta-lhe o poder com os olhos do filho que vê no pai o super homem, isto não tem algo a ver com um conforto de ser super para alguém ou de contar com alguém que é super para nós, seria assim o céu? Ou seria o céu o lugar onde a filha menina/mulher busca a forma ideal para alcançar o olhar do pai? Somente quando já está a caminho de deixar o céu Cris pode ver a menina que sua filha é sem precisar mais ver só o que quer ver  e só já lá bem mais perto do inferno o filho pode dizer:- “eu não sou você, você não controla minha vida” numa proposta de parceria diferente que pode ir até ao inferno... Mas sem os super poderes.

Então, Cris vai se afastando do céu, pois o céu não lhe traz de volta a sua alma (gêmea), não responde ao que busca, é preciso ir mais longe. Mas com quem se pode “descer” até o inferno ou ao vale dos suicidas? Quem tem condições de viajar por estas áreas, conhecer algo do caminho? Um filho? Um psicólogo? Um psicanalista? Quem pode ser o “barqueiro” com o qual podemos contar para viajar pelos nossos “vales de lágrimas”, pela nossa escuridão? Como viajar por “estes mundos” sem nos afundarmos e também sermos tragados e ficarmos lá.

Questão da vida, de como viver nossas dores pela travessia sem que elas nos inundem e impeçam a continuidade. Nosso personagem viaja até este inferno em busca da alma perdida da mulher, sua alma gêmea que não suportou as tragédias que teve que enfrentar? Ou teria ido atrás da própria alma? Alma que foi recuperando ao longo do percurso até lá, ao perceber a insuficiência do “céu”, ao reconhecer os filhos que pensava conhecer e ainda ao poder sentir a própria dor, conhecer seu próprio inferno que ainda não havia enfrentado até então?

Quando como psicanalistas estamos tentando resgatar “almas perdidas” em tanta dor, o quanto enfrentamos de nossos próprios infernos?  Quanto resgatamos de nós mesmos, quando conseguimos alcançar nossos companheiros de viagem?

No entanto, como “barqueiros/psicanalistas” nos cabe o cuidado para não ficarmos lá, nós e o outro, para não nos perdermos neste caminho. Há a recomendação muito clara, não fique tempo demais, mas também há a recomendação, não olhe em volta, não se prenda aos “ensinamentos” e prevenções é preciso deixar para trás o que sabemos ou pensamos saber e olhar para o outro, ainda que seja o olhar difícil e “vidrado” do outro, a arma para sair do inferno é a possibilidade de um encontro de olhares que provoca uma reviravolta, um olhar que encontra o outro e a si mesmo. O resgate da alma e a recuperação para uma nova vida se dão pelo encontro que deixando a onipotência e suportando o desamparo recupera a chance de ser humano e participar do universo ao redor.

Como pessoas e em especial no nosso trabalho não podemos perder de vista a alma própria e a de quem está conosco e paradoxalmente constantemente lidamos com este risco.

Grotstein, psicanalista americano autor do livro “Quem é o sonhador que sonha o sonho”, nos fala do Espaço Psíquico e sua dimensionalidade que de alguma forma poderia corresponder às diversas dimensões apresentadas no filme a respeito dos planos onde pode acontecer nossa busca pela “alma perdida”. Este autor propõe que nossa mente também funciona em várias dimensões e que ao longo da vida o indivíduo “viaja” por elas quem sabe como Cris viaja pela terra, céu, inferno e assim passa por diversos estados de consciência conforme o período

da vida e conforme as situações que precisa elaborar. Sugere que o sujeito pode viver num estado de mente onde não há tempo ou espaço, ou o tempo e espaço são infinitos, sem limites como no “limbo” ou vale dos suicidas o estado de morto-vivo, onde não é possível nem saber da própria vida ou dor, não há nem a lembrança, é o desmaiar de dor que pode prender o indivíduo a esta dimensão, sem enxergar alternativas, um “infinito particular”. Numa outra dimensão tudo é urgente demais, terrível demais, a dor é percebida, sentida, porém como insuportável, como na visão unidimensional suicida do “assim não vale a pena viver” e o “assim” é de um jeito só e não há alternativas.

Ainda este autor, coloca que o trabalho psicanalítico (e eu penso que  também o trabalho do viver) seria escapar a esta armadilha de ser dominado por uma única visão, para, quem sabe, poder alcançar a noção de continuidade no tempo e a partir daí  encontrar um “lugar” para a dor em vida.

O filme termina com o “milagre” da vida que renasce, depois de todo o percurso cumprido. Percurso este, que buscando inspiração em Marisa Monte, poderia ser representado como de um “Infinito Particular” para o “Universo ao meu redor”, ligando os  títulos de dois álbuns lançados por ela simultaneamente (não é pra separar é pra viajar entre e por eles) onde na música “Infinito Particular” ela desafia e diz “Não tenha medo...Me olhe... Me retrate... Me repare... Só não se perca ao entrar no meu infinito particular”.

Já em “Universo ao meu redor” diz assim:

Tarde, já de manhã cedinho
Quando a névoa toma conta da cidade
Quem pega no violão
Sou eu, sou eu
Pra cantar a novidade
Quantas lágrimas de orvalho na roseira
Todo mundo tem um canto de tristeza
Graças a Deus um passarinho
Vem me acompanhar
Cantando bem baixinho
E eu já não me sinto só
Tão só, tão só
Com o universo ao meu redor.”
 
Não é um alívio ter um canto pra tristeza? Mas precisa ser só um canto e com um passarinho para acompanhar.
 
Referência Bibliográfica- Grotstein,James S.-“Quem é o sonhador que sonha o sonho? Um estudo de presenças psíquicas” Rio de Janeiro, Ed.Imago, 2003.