"Náufrago "

Lia Fátima Christovão (Membro associado da SBPRP e SBPSP)

INTRODUÇÃO

Quero agradecer a todos e à Comissão de Cinema e Psicanálise essa oportunidade de estar aqui, com vocês.
Vou, logo de início, tomar emprestadas umas palavras do filósofo Merleau-Ponty. Dizia ele:

"... No diálogo, fico liberado de mim mesmo, os pensamentos de outrem são dele mesmo, não sou eu quem os formo, embora eu os aprenda tão logo nasçam e mesmo me antecipe a eles; assim como as objeções de outrem arrancam de mim pensamentos que eu não sabia possuir, de tal modo que, se lhe empresto pensamentos, em troca ele me faz pensar." (1)

Sugiro que essa imagem de um pensar ou de um existir, que evolve na presença de um outro, fique, então, como uma imagem exemplar para o que vou desenvolver. Ao final, devo voltar a isso.
Quando nos reunimos assim como estamos reunidos aqui, hoje, criamos uma situação muito particular, especial mesmo, porque, no dia-a-dia, organizamos nossa vida inserida em certas dimensões de tempo e espaço. Temos nossos calendários, nossos relógios, horas de 60 minutos, minutos de 60 segundos e assim por diante. Nas palavras do nosso personagem: -" O tempo nos controla sem piedade". De fato, são as marcações desse nosso tempo, dito profano, que, por sua vez, pode romper-se no rito de despregar-se um curativo, por exemplo, como no filme, e remeter-nos a uma outra dimensão - "in illo tempore" - um tempo sem tempo para onde converge toda a existência humana, de todas as épocas; um tempo simbólico, fornecendo tantos significados quantos forem os olhares que para aí se dirijam. O olhar de um cineasta, de uma antropóloga, de uma psicanalista e de outros, cada qual extraindo daí sua parcela de respostas.
Também numa noite como essa, ao deixarmos nossas casas para nos reunirmos aqui, executamos uma espécie de ritual com o qual escapamos ao cotidiano; rompemos, de certo modo, com nossas marcações habituais para nos lançarmos na busca de um novo conhecimento, talvez... De toda forma, uma busca que tem paralelo com muitas dessas lendas e poemas de fantásticas viagens a terras desconhecidas, de heróis que ousam transgredir etc...
Mais ainda, do ponto de vista de uma busca de si mesmo, podemos estender esse paralelo, que estou sugerindo, ao processo psicanalítico ou mesmo a uma sessão de análise. Aí também ocorrem rupturas análogas. Inaugura-se um tempo e um espaço peculiares. É muito comum um analisando comentar algo assim: - Vinha para cá cheio de histórias para te contar, mas, quando entro por aquela porta, alguma coisa muda e aquelas histórias já não fazem tanto sentido.
A experiência emocional de uma análise, de fato, desenvolve-se num tempo e espaço peculiares - a hora de 50 minutos - e tentamos abarcar isso que se passa com nomes tão genéricos como: campo, "setting" ou situação analítica; de toda maneira, uma situação deveras extraordinária, com a característica essencial de se desenrolar na presença de alguém. Sendo esse alguém um psicanalista, de modo geral, damos a isso o nome de psicanálise.


A PRESENÇA DE UM OUTRO

Não pretendo comentar o filme propriamente, como vocês já devem ter percebido. Pretendo acompanhar alguns dos movimentos emocionais, que o filme deflagra e põe em andamento, naquilo que me inspiram com relação a um tema caro aos psicanalistas que é a presença desse outro. Esse outro sem o qual não há análise e, até onde podemos alcançar, também não há vida psíquica. Esse outro que pode passar por vários estágios numa mesma relação.
A princípio, para haver vida, é preciso que a fome seja saciada, que necessidades vitais sejam satisfeitas. Até aí, nós e os outros animais caminhamos mais ou menos juntos, tratamos de sobreviver, como o personagem, nos primeiros tempos, naquela ilha. Mas é, justamente, quando essa satisfação é negada, ou seja, quando a frustração se impõe, é aí, na dificuldade, na descontinuidade, no hiato entre o anseio e a realização desse anseio que surge, por assim dizer, a primeira centelha de pensamento ou de "psique", como na frustração do nosso personagem, na sua luta para obter fogo. Esse "fogo", de certo ponto de vista, simboliza esse passo de que estamos falando. Da mesma forma, essa frustração, enquanto dor narcisicamente sentida por uma criança pequena, precisando tolerar os tormentos da sua fome até receber o conforto, a saciedade que lhe provê o seio materno. É dessa dor, dessa ferida, da espera que nasce essa nova condição humana: a condição de pensar.
Contudo, alguém está por ali. Na expectativa da criança, existe um seio que vai chegar, existe uma mãe que, se não está presente, deve, no entanto, existir em algum lugar. Remetendo-me ao filme: existe um olhar que acompanha...
Não se trata de uma frustração lançada no vazio. Se assim acontece, nasce daí mais dor, até o insuportável ou até o terror. Essa frustração, para ser benigna e gerar crescimento, há de ser em presença de um outro.
Em princípio, esse outro é concebido como um certo prolongamento de nós mesmos. É assim no começo da vida, é assim numa análise, é assim num começo de namoro, num apaixonamento, porque a vida tende a repetir certos ciclos. Esse outro, envolto em certa magia, em certa aura de idealização, é concebido, mais ou menos, como imagem e semelhança de nós mesmos ou de nossos anseios, como representado no filme: sangue do mesmo sangue.
Uma vez, li um trabalho de um colega de São Paulo - Plínio do Amaral - intitulado: "Por Quem Teria, Verdadeiramente, Narciso se Apaixonado?"(2). Conta a lenda que se apaixonara por sua própria imagem refletida num lago. Mas, esse autor segue por uns caminhos interessantes e vai dar em algo mais ou menos assim: Não teria Narciso se apaixonado por sua imagem refletida nos olhos de sua mãe? Ou seja, não se teria apaixonado por si mesmo pelos olhos de sua mãe? A relação aí é amalgamada, fusional, porém, é essa relação que nutre narcisicamente através desse olhar, por assim dizer, que permite que o indivíduo vá construindo a noção do seu existir, do seu ser, da sua "psique" e da realidade que o cerca; esse olhar que corrobora a existência de algo, de certa realidade. Como diria o nosso herói para o "seu" Wílson: -"O vento ajudou, não ajudou Wílson?"-, como quem dissesse:- "Você está vendo o mesmo que eu estou vendo, não é?"- Ele já não está só.


O LUTO

Mas, naturalmente, essa relação idílica cumpre sua função e tem seus dias contados. É preciso! Começamos um trabalho, por exemplo, no calor do entusiasmo, mas, esse entusiasmo, por si só, não se sustenta. É sempre chegada a hora do desenlace, da ruptura, de uma espécie particular de desencanto, uma espécie de ajustamento com a realidade, sem o qual também não há crescimento. E, de novo, estamos falando de algo que pertence a vários estágios da vida e se repete a cada uma das inúmeras vezes que vamos renascendo pela vida afora, a cada vez que amadurecemos um pouco ou, para usar uma imagem do filme, a cada vez que atravessamos a zona de rebentação.
Essa experiência pertence a cada um de nós. Está representada no mito da perda do paraíso. Quem alguma vez na vida já não chorou desoladamente, chorou e chorou, sem nada que pudesse fazer a não ser chorar e esperar que um outro dia nascesse e trouxesse a serenidade? Porque a vida impõe essas renúncias, às vezes concretas, mas nem sempre; às vezes, esse luto de que se trata é dentro, muito mais por alguma coisa que muda, que amadurece em nós; porque é preciso que a paixão ceda ao amor mais maduro; que o entusiasmo ceda à tolerância, por exemplo; é preciso que um filho, para crescer, liberte-se de seus poderosos pais da infância; e os pais amadureçam seu amor, de tal forma a poderem reconhecer que, embora amem seus filhos, não podem impedir que sofram, não podem impedir que partam. São momentos de quebra de orgulho, de renúncia, às vezes, sentidos como de extrema solidão.
Mas, essencialmente, o que está em mudança é a relação com esse outro dentro de cada um de nós. John Steiner - um psicanalista inglês - diz isso de uma forma bem poética, talvez até porque apenas as formas poéticas dêem conta de expressar um pouco mais essas vivências. Ele diz mais ou menos assim: Essa realidade psíquica, de que estamos falando, inclui a percepção do "desastre" interno... O conhecimento de que "o amor e os desejos reparadores" não são suficientes para preservar esse objeto dessa forma, que "é preciso permitir que morra, com a desolação e a culpa conseqüentes".(3) É como nosso personagem se desculpando com "seu" Wílson mas, retornando à jangada para continuar vivo. É a vida que se impõe! E uso agora uma fala do próprio personagem: - "É preciso continuar respirando, porque a maré pode trazer algo." Ou ainda: um navio pode aparecer, um outro amor pode surgir. É a esperança que nos mantém, como algo que restou intacto dentro daquela caixa até o final da história. Porque isso de que estou falando diz respeito a algumas vicissitudes do amor, que vai amadurecendo ao longo da vida.

CONCLUSÃO

Considero aqui, como um estágio no amadurecimento da capacidade de amar, necessário e fortalecedor para o Ego, esse amor, realizado narcisicamente "naquele olhar" - esse amor por si, que nutre um indivíduo capaz de esperança, capaz de se resgatar desse "naufrágio" e, seus objetos dentro de si, para uma relação mais madura, mais livre, onde se podem realizar mais plenamente aquelas palavras de Merleau-Ponty: "(...) as objeções de outrem que arrancam de mim pensamentos que eu não sabia possuir, de tal modo que, se lhe empresto pensamentos, em troca ele me faz pensar."
O outro continua sendo necessário para revelar, para mim mesmo, minha existência, mas algo amadureceu. Está franqueado o caminho de uma mais plena realização de cada individualidade.

REFERÊNCIAS

(1) MERLEAU-PONTY. O filósofo e sua sombra.
(2) AMARAL, P.A. Por Quem Teria Narsiso, Verdadeiramente, se Apaixonado? Trabalho apresentado em Reunião Científica da SPBSP 1992.
(3) STEINER, J. O Interjogo Entre Organizações Patológicas e as Posições Esquizo-paranóide e Depressiva. In Melanie Klein Hoje. Vol.1. Rio de Janeiro: Imago, 1991

Lia Fátima Christovão
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ANA KEILA PINEZI

Freqüentemente pensamos, em meio à correria da vida, que seria interessante parar tudo e "sumir". Geralmente pensamos em uma viagem, longa, para um lugar distante, que nos afaste, que nos proteja não só da correria da vida mas também das confusões que advém dos nossos relacionamentos, seja na esfera pública, seja na esfera privada. Essa é, em geral, a saída mais radical que temos em mente para os problemas que o mundo moderno nos impõe. Essa é uma primeira relação que podemos traçar com o filme "Náufrago". É bem verdade que é uma fuga "forçada", mas que nos faz pensar em nossa vida, na nossa rotina, nos nossos relacionamentos e na nossa própria identidade.
O filme trabalha, primeira e continuamente, com um paradoxo muito forte que envolve o nosso cotidiano que é a questão do tempo. O tempo não é unívoco, ele pode ter vários sentidos, ele é polissêmico. O filme aborda, por um lado, o tempo numa sociedade capitalista, de consumo (e em uma que está aderindo ao modelo norte-americano de otimizar esse tempo que é a sociedade russa - símbolo, hoje, da suposta decadência do socialismo e da emergência da globalização) e, por outro lado, a idéia de que o tempo é relativo e pode ser pensado e vivido de uma outra forma e que atenda a outras necessidades.
"Time is money". Essa é a lógica do tempo na sociedade ocidental. Quando vemos "Náufrago", imediatamente vemos uma ruptura no tempo do personagem e a reconstrução desse tempo num mundo distante do mundo ocidental capitalista. A questão é que somos homens e mulheres de nosso tempo e de um contexto sociocultural específico, particular. Podemos perceber isso através das dificuldades que o personagem demonstra para sobreviver naquela ilha sem o aparato tecnológico e relacional que montamos no mundo "civilizado".
A imagem do relógio, ou de relógios, que aparece freqüentemente no filme, dá-nos essa idéia. O tempo, para nós, é linear, ou seja, é uma sucessão de acontecimentos que levam a outros acontecimentos. Na ilha, o tempo ocupa uma outra idéia, a de que o tempo pode ser cíclico. O personagem passa a pensá-lo através da mudança dos ventos, por exemplo. Essa nova noção de tempo para o personagem traz consigo o medo do novo e inevitavelmente a busca dos referenciais passados. No filme, passado e presente se misturam de forma a possibilitar uma mínima estabilidade para se pensar o futuro. A memória precisa ser mantida, pois é a identidade que se encontra em jogo. A memória do náufrago se concretiza através de desenhos e escritos na caverna e de suas conversas com seu "espelho", com seu "outro" ou seu "alter", Wilson.
Antes de pensarmos mais especificamente sobre a construção da identidade e a necessidade de manter suas estruturas mais básicas, pensemos um pouco mais sobre o tempo.
Ele, o tempo, permeia todas as nossas relações sociais e direciona nossas prioridades, num mundo em que tempo é dinheiro. Por isso, há pouco tempo para momentos em que o trabalho, visto do ponto de vista do capital, não está presente. O natal e o ano novo, por exemplo, são "concessões" capitalistas para momentos de sociabilidade, particularmente familiar. Claro que o cronômetro dos lucros, mesmo nesses momentos, continua a rodar, pois o consumo se condensa e a sobra do tempo é compensada. E não é só para reuniões familiares ou com os amigos que o tempo impõe seu calendário. Há pouco espaço para si próprio, para cuidar-se de si. "Dê um tempo para você" é um mote que ouvimos freqüentemente no nosso mundo moderno, com todas as facilidades que ele parece nos oferecer em termos tecnológicos. O personagem não tem tempo, por exemplo, para ir ao dentista. Sua dor de dente é relativizada. Ela pode esperar. Mas é com a hecatombe, com o inesperado, que a nossa noção de tempo acaba sendo confrontada e questionada. A doença da mulher do amigo de Chucki demonstra que só assim o tempo pode parar, não para os outros, mas para ela. Claro que o Chronos não pára, mas o tempo passa a ser repensado, ressignificado. E é só com uma fatalidade que o sentido do tempo pode mudar. Nossas necessidades mais básicas também estão submetidas ao tempo socialmente construído. Mesmo o que temos de mais "primitivo", de mais biológico, por exemplo, o instinto de sobrevivência, passa a ser aniquilado pelas nossas construções sociais, pelos nossos códigos e padrões culturais. Lembremos que o personagem, no momento do acidente, ainda dentro do avião, prefere pegar primeiro o relógio com a fotografia da namorada do que o colete salva-vidas. Somos, repetindo, pessoas do nosso tempo, do nosso lugar, da nossa cultura, produtos de nossas relações sociais e dos padrões que nossa sociedade estabeleceu como predominantes e essenciais.
No meio dessa nossa sociedade, marcada pelo tempo, pela rapidez, pela eficiência, somos, ainda, capazes de encontrarmos saídas para travarmos relações afetivas, mesmo que o trabalho e essas relações se misturem. O relógio, um relógio de família, com a foto da namorada mostra-nos bem a mistura da afetividade e do mundo do trabalho e da produtividade.
O acidente com o avião representa as mudanças pelas quais passamos em nossa vida. E é nesse momento que nos encontramos conosco mesmos. É preciso reconstruir as coisas. Juntar os "pedaços", tal como Chucki faz ao recolher os destroços e os pacotes da Fedex. Além disso, precisamos enterrar algumas coisas e algumas representações sobre pessoas que temos. Olhamos para nossas necessidades mais básicas. Entramos em contato com elas, necessidades estas que o tempo social torna opacas ao nosso olhar e aponta-nos para outras que, via de regra em nossa sociedade capitalista, não são necessidades reais.
Na ilha, a questão da identidade emerge de uma forma violenta. A construção da identidade se dá essencialmente no universo relacional. Se a identidade se dá no plano das relações sociais em que o "eu" se depara com o "outro", ou seja, ela é contrastiva na medida em que se forma no contato e confronto com o "outro", o diferente, a identidade é também exterior a um determinado grupo ou indivíduo. Ela não pertence a nenhum deles; ela é construída continuamente no âmbito das relações sociais e, portanto, ela não é fixa e imutável. Pensando dessa forma, o personagem precisa a todo instante resgatar as estruturas fundamentais de sua identidade, numa ilha, no caos, em que as relações sociais não são possíveis. Isso impõe uma atitude desesperada do náufrago no sentido de não cair no caos, no inclassificável. Precisamos da classificação das coisas. Essa classificação implica, necessariamente, numa distinção que se faz por oposição, uma oposição que faça sentido, uma oposição que tenha como base as representações sociais como instância que informa aos grupos sociais como classificar as coisas. Essas representações, que são impregnadas de valor, podem nos conduzir à compreensão de como e porque as identidades são construídas de tais e quais formas . Opor-se, no caso do náufrago, a que, a quem no meio do nada? O "outro", então, tem que ser inventado, criado, tem que nascer. É assim que "vem ao mundo", sob forma de produção independente, mais um personagem, o Wilson. E mais, ele vem ao mundo através do próprio sangue de Chucki, seu pai e sua mãe. A representação do sangue é o significado do nascimento, ou seja, Wilson sai de dentro de Chucki e se torna, por oposição, o alter dele mesmo. Assim, o náufrago é capaz de manter o significado do mundo. O jogo de espelhos, em que nós nos vemos através do diferente, do "outro", consegue ser estabelecido pelo personagem. Wilson é a representação da diferença e da única possibilidade de classificação das coisas e da manutenção da identidade do personagem. Precisamos compartilhar acontecimentos, sentimentos, impressões não apenas por dizê-las, mas porque precisamos do contraste, da idéia do outro, da sensação reconfortante de que não estamos no caos, de que o outro nos entende, mesmo que discorde do que pensamos ou sentimos.
Chucki só consegue fazer surgir o fogo com a ajuda de Wilson. Este o desafia a ultrapassar seus limites humanos. Wilson o impulsiona a criar, a estruturar, a tornar-se um homem, aquele que domina a natureza através de seu aparato extra-corpóreo, através do superorgânico, ou seja, através da cultura, da sua capacidade de criação e transformação.
Por fim, quero falar rapidamente sobre o desejo. Como diria Cazuza, "O tempo não pára". A namorada constituiu família e agora o náufrago volta para sua sociedade, com novas experiências. Nós mudamos. Isso é óbvio. Mas as mudanças convivem com alguns sistemas simbólicos que demoram a mudar também. O desejo, parado no tempo, dos namorados é atravessado por mudanças e por princípios quase imutáveis que o tornam impossível de ser realizado. A família da então namorada é uma representação muito mais forte do que o desejo de fazer valer o sentimento afetivo. Os laços familiares agora estabelecidos os separam. O tempo é relativo, como também o é o desejo diante de algumas situações. Entre o desejo e a instituição familiar e todos os laços afetivos e sociais que dela decorrem, os dois compreendem que o segundo deve prevalecer. Essa é a regra. Esse é o certo naquele tempo e naquele contexto. O relógio dado pela namorada e seu tempo não fazem mais sentido para os dois. É um relógio de família que deve ser passado de geração a geração. O amor romântico cede lugar ao que a sociedade reconhece como fundamental para sua própria reprodução biológica e social, a família.
Diante da impossibilidade de retomar o passado, Chucki decide viver o presente. A encruzilhada, no final do filme, demonstra-nos que podemos escolher, dentro das possibilidades que a sociedade nos oferece, alguns caminhos. Não somos sujeitos tão autônomos como poderíamos pensar, mas temos, sim, a capacidade de criar, de escolher, de pensar e repensar o futuro e de usar nossas experiências passadas para encararmos novos rumos.